sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

nem que fossem os filhos

«...
Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo
uma tarde ao voltar do monte saint michel
nesse verão bretão onde então procurava
justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio
que às vezes empreendo embora antecipadamente certo
de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei
alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos
sobretudo sedentos de justiça
de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei
até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei
que muito mais passei naquilo em que fiquei
nem que fossem os filhos ou os versos
que fiquei muito mais naquilo onde passei
como passos na areia no inverno ou repentinas sensações
de me sentir de súbito sensivelmente bem
encher o peito de ar sentir-me vivo
...»

ruy belo - elogio de maria teresa

quarta-feira, 2 de Julho de 2014

como desaparecer completamente

enterrei tantas memórias. escondi-as de propósito. e agora não as encontro. elas estão lá mas eu não estou aqui. era uma estrada que parecia infinita. era verão.

quinta-feira, 6 de Março de 2014

era muito infantil

era muito infantil se te lembrasse dos
toques de chamada para as aulas
esse tempo último dos beijos

era muito infantil se te lembrasse dos
primeiros dias da primavera
quando os gestos ainda eram invernos

era muito infantil se te lembrasse das
horas que te esperei sempre no mesmo sítio
mesmo depois de me não quereres

era muito infantil e eu sei que acabou
sei pesadamente que esses dias não hão-de nascer
que a noite é uma estrada certa
fria, longa
onde não podemos falar

segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

e se eu tiver de te seguir

and if I have to follow you, you will not rip this heart of mine in two
you cannot break this chain
but you can build a wall to shut me out if you so choose

sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

um poema para ti

uma folha branca vazia em silêncio
o teu riso inesperado
as tuas mãos sem mal
os teus olhos curiosos

a única vida

tenho a certeza que nunca amarei nada mais belo
apesar de não saber como te amar ainda mais
e o teu sorriso revelar-me o quão infeliz era antes de ti
antes de seres a única vida que hoje há em mim

quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

desejo-te o melhor

All the hearts are breaking over this
A testament to targets that we missed
If the highest mountain is a personal pursuit
I wish the best to you
It's better to be last than be too late
Stronger to have fallen and recovered from mistakes
Some days I stumble when these words, they have no weight
Then I get up again

Don't let the bastards get you down
Don't let the bastards get you down
They can go to hell

Matt Pryor – Don't Let the Bastards Get You Down

ano novo, hábitos velhos

sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

e é isto

olhar para trás também é isto. saber o tempo que se perdeu. e agora? olhar para a frente? não. olhar para trás e voltar a contar.

sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

5 de setembro

um dia bom para ver o futuro. para ter a certeza que ele existe. desistir teria sido mais fácil. ficar a única razão agarrada a mim. partir teria sido mais fácil. fincar a única maneira de ser. cravar os pés bem fundo e arrancar para longe de mim.

quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

é a tarde que morre

o fim das férias grandes, o fim do verão, do calor, da água fria. é como a tarde que morre. uma recordação que fica de pura felicidade.
nunca esqueceremos as noites quentes em que o verão se espreguiçava pela madrugada. e nada o podia interromper. o primeiro verão contigo. verão de tantos passeios, de tantos beijos e carinhos. cresceste sem pedir licença.

quarta-feira, 29 de Maio de 2013

segunda-feira, 11 de Março de 2013

é o amor em que acordamos

Eu Seguro

Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.

Quando o espanto for de medo,
O esperado for do mundo
E não for domado o espinho 
Da carne que partilhamos,
Eu seguro.
O sustento é forte quando o intento é puro.

Quando o tempo eu for remindo,
Cada poço eu for tapando
E esta pedra em que dormimos
Já for rocha em que assentamos,
Eu seguro.
Deixo às pedras esse coração tão duro.

Quando o medo for saindo
E do mundo eu for sarando
Dessa herança eu faço o manto 
Em que ambos cicatrizamos 
E seguro.
Não receio o velho agravo que suturo. 

Abraços rotos, lassos,
Por onde escapam nossos votos.
Abraso os ramos secos, 
Afago, a fogo, os embaraços
E seguro,
Alastro essa chama a cada canto escuro.

Quando o tempo for recobro,
Cada passo abraço forte
E o voto que concordámos
É o amor em que acordamos,
Eu seguro:
Finco os dedos e este fruto está maduro.

Quando o espanto for em dobro,
o esperado mais que a morte,
Quando o espinho já sarámos
No corpo que partilhamos,
Eu seguro.
O que então nascer não será prematuro.

Uníssonos no sono,
O mesmo turno e o mesmo dono,
Um leito e nenhum trono.
Mesmo que brote o desabono
Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.

samuel úria

terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

sonhar contigo

adormeço com os teus gestos ainda invisíveis. convivo com a tua agitação. adormece comigo. deixa-me sonhar contigo. já falta pouco para nos vermos.

sábado, 12 de Janeiro de 2013

tamanho mistério

poderia ter percorrido todos os caminhos do mundo. ter lido todos os livros. toda a poesia. todos os versículos. não saberia compreender, ainda assim, como existes sem te ter ainda conhecido. se nunca te vi e amo-te, só podes ser parte de um milagre. de um tamanho mistério chamado amor, convertido em vida.

terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

uma outra menina
















e depois o que fica? o perdão vence ao olharmos para o menino. tudo passa no verbo que se faz carne. naquele olhar, naquela tranquilidade. uma criança apenas. como foi possível? como chegámos aqui? o que procurávamos? tudo passa no silêncio daquele milagre. de um menino sem voz que nos fala sem cessar. mesmo na nossa eterna surdez.

feliz natal. enquanto esperamos uma outra menina.

sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

outono, à tua espera

algumas folhas caem
e tu nasces
protegida do vento

não conheces a chuva
mas és feita de água e
nela respiras

abrigada do mundo
és a promessa
de um olhar puro

 nem vento, nem chuva, nem mundo

quarta-feira, 17 de Outubro de 2012

os dedos de uma mão

um gesto simples
instantes de vida

os dedos de uma mão

«tu tens o meu nome clara rilke»

terça-feira, 9 de Outubro de 2012

a alegria em um instante

a tua forma nas minhas lágrimas
um sorriso escondido
a promessa de uma vida

 a alegria em um instante

sábado, 1 de Setembro de 2012

de braços caídos

"(..) 
sei que é em vão que tudo será decerto em vão e que mais uma vez 
assisti sem remédio de braços caídos à implacável destruição do verão 
que é feito do verão que é feito dessa pausada estação 
onde eu sem saber cavara os alicerces da minha vida que é feito 
dos olhos sérios e dignos dessa criança ameaçada pelo fim do verão 
por um tempo que em breve a roubaria ao ruidoso convívio do verão? 
(...)" 

nos finais do verão - ruy belo