quinta-feira, 19 de abril de 2007

vem sentar-te comigo, lídia



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas, que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes de decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

ricardo reis

sexta-feira, 13 de abril de 2007

cante



se tu não fosses mariana
não vinhas a braços meus

terça-feira, 3 de abril de 2007

do sangue frio

ver a morte e não a temer. sentir uma profunda confiança. que espécie de situação é esta? o que me aconteceu?

quinta-feira, 29 de março de 2007

ícaro

sabes bem que o meu amor por ti não precisa de rosas nem de palavras. ele vive de um sopro. muito simples. uma brisa da tarde que faz ondular levemente o teu cabelo. que te arrepia de súbito. que vai daqui até. sou eu. sim. presente.

giroflé, giroflá

no dia em que eu deixar de querer começará o passado. e o presente será sempre um constante passado. sem qualquer futuro.

sábado, 24 de março de 2007

em teoria

podíamos melhorar os gestos. torná-los mais simples. mais puros. (e por puros entendo mais perto do coração). podíamos até mesmo tentar ouvir o mar. mas deixamos uma inquietação estúpida toldar os nossos sentidos. duvidar do futuro. até regressar ao egoísmo dos dias curtos de inverno. e os gestos ficam parcos como os meus pés na noite fria. e os gestos passam apenas a ser teoria.

o meu monte das oliveiras

o medo de voltar a certos lugares resulta de uma humilde mas assustadora certeza. uma vez lá, não poderei jamais regressar.

quarta-feira, 21 de março de 2007

porque choras ao ler poesia?

é a tua incapacidade de amar. a tua incapacidade de amar. e a solidão. tanta solidão. incontida.

dia mundial da poesia

Povoamento

"No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera"

ruy belo, aquele grande rio eufrates, 1961.

cada vez leio mais e gosto mais. parafraseando um dos teus versos, as tuas palavras seriam a voz se o silêncio se pudesse ouvir.

23 razões para ser feliz

depois de nova iorque ter assistido em 1993 ao nascimento de uma das bandas mais interessantes da música independente, os blonde redhead foram nos primeiros álbuns causa de espanto e de deslumbramento sobretudo pelas guitarras dissonantes e pela tremenda mistura de sons da voz masculina com a voz feminina. no seu último álbum, 23, kazu makino e os gémeos italianos simone e amedeo pace chegam a um ponto sublime na sua já longa carreira. a voz de kazu atinge todo o esplendor, envolta numa fragilidade sempre desconcertante. O início do álbum é aterrador, sobretudo pela beleza de "dr. strangelove", e termina com o magnífico tema "my impure hair", primeiro tema que ouvi na rádio de um simpático melómano, meu velho conhecido.


sábado, 10 de março de 2007

impasse

um impasse é isso. uma fracção de segundos numa música em que os instrumentos podem fazer qualquer coisa a seguir. pode até mesmo surgir uma voz. impera o silêncio. uma espécie de gesto interrompido. ia fazer mas já não vou. espero. repenso. e agora? fico assim. meio perdido. num impasse.

hoje vou-me deitar assim

lembras-te, ao telefone

"Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ò meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora
talvez apenas dizer
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos"

ruy belo
"Através da chuva e da névoa"
Homem de Palavra[s]

sweet sixteen

sabemos que o tempo passou quando vemos o amor surgir, como água de uma rocha, paciente, sibilante, nos corações daqueles que já foram tão mais novos do que nós.

quinta-feira, 8 de março de 2007

a primeira prenda da casa nova



ermida de nossa senhora da guadalupe, monte de s. gens, serpa.

quarta-feira, 7 de março de 2007

ser anti-benfiquista é...




... sentir vómitos depois de ver que, após o jogo de ontem, do porto, contra o chelsea, a cor que mancha as capas dos principais jornais desportivos é o "encarnado". levar um clube ao colo é isto. e isto mete nojo.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

casa nova #2



"home, home is where I always want to be
home is there for you and is for me
home is where I never want to leave"

josh rouse

as minhas wee hours

o som monótomo da ventoinha do computador. um vago olhar absorto. um súbito mas leve desespero. um suspiro. letras e linhas que passam velozes diante de mim. já não consigo ler mais. já não quero ler mais.

antes do anoitecer

e mesmo que tudo tivesse sido apenas aquele beijo isso seria suficiente para ter a certeza, hoje, de que serei para sempre teu. mas sem a menor dúvida. sem a menor hesitação. eu não sei o que é o amor. amo-te.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

faria hoje 150 anos de vida



carinhosamente chamado B.P.